Vila do Conde - Santiago - Finisterra 29
Aqui fica FINALMENTE o report de Santiago. Como muitos já sabem, o projecto do Portal de Albergaria tem-me absorvido o tempo todo e por esse motivo não tenho tido hipotese de actualizar o blog. Aqui fica então um resumo da aventura dos cinco peregrinos Pedro, João, Álvaro, Nuno e Bastos nos passados dia 15, 16 e 17 de Agosto.
Dia 1 - Vila do Conde > Valença
O dia começou muito cedo. Ainda era noite escura quando nos concentrámos junto ao Clube de Albergaria. Carregar homens, bagagens e máquinas foi rápido, com excepção da maquina do Nuno, que necessita de uma logística especial. Enquanto isso, o Álvaro aproveitou para lavar a bike e lá partimos em direcção a Vila do Conde.
Chegámos à hora que o sol estava a nascer, descarregámos o material, tirámos as fotos da praxe, despedimo-nos do Romeu e arrancámos. 200 metros mais à frente primeira paragem numa pastelaria para comer qualquer coisa e carimbar pela primeira vez.. Neste inicio de percurso ainda não havia setas de marcação porque se tratava de um troço de ligação até ao caminho, seguimos um track gentilmente cedido pelo Hernâni dos Cagaréus. A segunda paragem foi em Rates, junto à famosa igreja para tirar umas fotos e na mercearia junto ao Albergue para mais um carimbo.
O Nuno começou a sentir as primeiras dificuldades com o suporte que se estava a desapertar e a ameaçar riscar o espigão do selim. Em Barcelos o calor já começava a apertar, pelo que aproveitámos uns bancos de jardim na bela da sombra para o primeiro reforço. Alguns km adiante passámos sobre uma velha ponte junto a uma praia fluvial onde uns banhistas se refrescavam. Com o potente sol do meio-dia não resistimos ao chamamento daquela água e fomos ao banho! Já bem mais frescos continuámos até Ponte de Lima, onde almoçámos que nem reis numa bela esplanada. O problema foi arranjar depois apetite para voltar a pedalar! Já sabiamos o que nos esperava como “sobremesa”, mas como o relógio não paráva tivemos mesmo que nos fazer ao caminho.
A Serra da Labruja é um adversário de respeito e que faz mossa. Foram alguns km a subir até ao último tasco antes da parte mais adversa. Parámos, bebemos uma quantidade jeitosa de liquidos, vimos uns minutos da transmissão do Tour, carimbámos e lá seguimos serra acima. O caminho até à Cruz dos Franceses é verdadeiramente duro e pouco ciclável e não foi fácil empurrar quase 20 kilos de bicicleta+bagagem até lá chegar, e mesmo depois da cruz há ainda uns bons metros de pedras no sitio do caminho até chegarmos ao alto da serra. Uma pequena pausa para descançar e para comer qualquer coisa e seguimos encosta abaixo. Tal como a subida, a descida é feita em grande parte a pé, o que nos atrasou bastante a progressão. Até Valença é sempre a andar e passamos em alguns singles espectaculares, só é pena termos que moderar o andamento devido aos alforges.
O nosso plano inicial era chegar até Porriño, mas a hora avançada não nos permitiu. Ainda demos um ao Albergue de Tuy, mas como estava cheio decidimos voltar para Portugal. Ficámos no Albergue de S. Teotónio, que tem excelentes condições, onde fomos muito bem recebidos e pudemos repousar por umas horitas. Ainda durante o jantar, a má notícia do dia: por motivos de força maior (trabalho) o Bastos ia ter que regressar a Ílhavo..
Dia 2 - Valença > Santiago de Compostela
Dormir nos Albergues é sempre estranho. Muita gente em pouco espaço, há sempre um que ressona, ou um que mexe em sacos plásticos à procura de sabe-se lá o quê, não é a nossa cama nem a nossa almofada.. enfim, não se pode bem chamar dormir, digamos que estivemos umas horas na horizontal a tentar repousar o corpo. Como eramos os únicos de bicicleta fomos os últimos a sair, tomámos calmamente o pequeno almoço, despedimo-nos do Bastos e lá fomos em direcção à fronteira. Foto aqui, foto ali, chegámos rapidamente a Porriño. A famosa recta da zona industrial foi feita em grande ritmo, graças a um trabalho de equipa do nosso “pelotão” agora reduzido a quatro betetistas.
À entrada da cidade o Nuno, bom peregrino e acérrimo defensor da moral e dos bons costumes ainda teve que por na ordem um casal de peregrinos que, imagine-se, ousou parar para um beijo ali em plena via pública. Nada que um belo “ssshhhttt!!” não tenha resolvido. Escusado será dizer que fomos a rir-nos durante uns bons kilometros.. nós e o casal visado!
A coisa pegou e cada vez que algo estava errado (e até mesmo quando não estava) o “sshhtt!!” passou a ser aplicado com bastante frequência. Avisamos o Nuno que podia ser perigoso para a sua integridade física, pelo que ele passou a medir melhor as situações em que podia intervir. Que o digam uns espanhois que desciam uma rua de bike sem corrente, que levaram com o “shhhttt!!” e não tinham meio de voltar para trás.. Nisto, o Álvaro que seguia um pouco mais atrás quase que foi vitima da ira dos espanhois algo agastados com a provocação!
Bastante animados lá começamos a subir o primeiro monte antes de Redondela, por um caminho bem inclinado por sinal. Já na descida por uma estrada de cimento levámos ao limite os travões das maquinas, que por pouco não provocaram um incêndio. Em Redondela mais uma paragem rápida para carimbar e siga para Pontevedra que daqui a pouco já é hora de almoço. Antes de Pontesampaio, o segue pelo alto do monte junto à Ria de Vigo, com paisagens espectaculares que motivaram mais algumas paragens para fotos. Depois de Pontesampaio vem a grande subida antes de Pontevedra e que não é nada fácil, são uns bons kilometros a subir e com bastante inclinação, mais uma vez dificultados pelo forte calor que fazia sentir na altura. Finalmente chegádos a Pontevedra fomos à procura do famoso “Pepe Garrafinhas”, ou melhor, a “Casa Digna”, um conhecido restaurante junto ao “Club de Mareantes” que nos tinha sido recomendado.Depois de algumas voltas lá demos com o sitio e almoçámos calmamente.
O almoço estava excelente, e como chegámos com o estomago a dar horas só saímos de lá quando “limpámos” a comida toda. Mais uma vez, foi complicado voltar a pedalar, mas lá teve que ser. Apesar de tudo impusémos um ritmo bastante forte até Santiago, com pequenas paragens apenas em Caldas de Reis e Padron. Chegámos a Santiago já com o sol a esconder-se. Dirigimo-nos directamente à catedral, tirámos as fotos da chegada e passámos a uma missão importante: encontrar Albergue para dormir.
Por incrivel que pareça não há quaisquer indicações no centro, não há postos de informação e só com muito custo conseguimos saber onde se localizava o albergue mais próximo. Entretanto a noite tinha caído e ainda demos algumas voltas pela cidade a lutar com mapas e com o gps para o encontrar. Quando finalmente o encontrámos, apesar da lotação ser para mais de 300 pessoas, estava cheio. Percebemos também que ao contrario de toda a restante rede de albergues, em Santiago é possivel marcar dormida, o que na minha óptica não tem grande lógica, uma vez que o que não falta na cidade são hoteis que se pode marcar. O rapaz que tomava conta do Albergue foi impecável e arranjou-nos domida num hostel. Com indicações exactas foi fácil de lá chegar. Arrumámos as bikes numa garagem na cave onde até funcionava uma oficina automóvel! A ASAE de Espanha parece-nos bem mais tolerante que a do lado de cá da fronteira!
Depois de um reconfortante banho jantámos por ali perto, e como ficámos em quartos duplos e bem sossegados pudemos finalmente disfrutar de uma bela noite de sono. No fundo acabámos por ter sorte uma vez que ficámos muito melhor instalados que no albergue, longe do barulho dos sacos plásticos a mexer a noite toda que em Valença nos tinham deixado bem agastados.
Dia 3 - Santiago de Compostela > Finisterra
Este era para mim o dia mais aguardado. Já tinha feito o Caminho Português no ano passado e este não conhecia de todo. Os relatos diziam que era fantástico e que valia mesmo a pena o esforço extra. Acordámos cerca das 8h30 (espanholas) preparámos as tralhas e fomos tomar o pequeno almoço e comprar fruta para a viagem. Fomos logo em direcção à Catedral com o objectivo de passar na oficina do peregrino para irmos buscar as credenciais. Rapidamente uma enorme fila nos demoveu desse objectivo. Já passava das 10h, a fila iria obrigar certamente a uma espera de mais de 1h e tinhamos mesmo que nos fazer ao caminho.
Ainda fomos visitar a catedral, tirar umas fotos e partimos em direcção ao mar. Com apenas alguns kilometros percorridos o Álvaro (que está sempre com fome como é sabido) resolveu provar uma das enormes “laranjas” que tinha comprado na frutaria. A primeira surpresa foi que não eram laranjas mas sim vermelhas e quando provou chegou à conclusão que também não sabiam a laranjas. O seu desagrado fez-nos experimentar também algo que nenhum de nós conseguiu explicar a que é que sabia, mas todos concordamos que um limão daqueles fracos era bem melhor que aquilo! Isso não demoveu o Álvaro que inexplicavelmente conseguiu comer a “vermelha” toda.
O caminho propriamente dito era de facto espectacular, passamos em singles e trilhos com muita sombra, cursos de água, subimos algumas “paredes” consideráveis até que começamos a chegar perto de eólicas. Aí a paisagem alterou-se bastante, pois nunca mais deixamos de as ter por perto. Quando viamos algumas bem longe no horizonte no cimo de montes mal sabiamos que ainda por lá iamos passar. Passamos ainda por alguns momentos complicados à passagem de uma aldeia onde havia uma festa e um homem lançou foguetes da parte de cima de um muro alto ligeiramente acima das nossas cabeças. Tememos que os espanhóis andassem por ali à caça com lança rockets, o que não é nada agradável, especialmente quando se vai na maior das descontrações.
A zona entre Negreira e Oliveiroa é algo disinteressante, onde quase tudo o que se vê para um lado e para o outro são campos de milho. Passámos por enumeros pueblos que constavam em 2 ou 3 casas, celeiros e estábulos. Como tinhamos partido tarde ja a hora do almoço tinha passado há um bom bocado e não aparecia um unico tasco, café ou restaurante. Valeu-nos a fruta que tinhamos comprado de manhã. Finalmente em Oliveiroa um autentico oasis, um restaurante com um excelente aspecto onde já quase às 4 da tarde nos deliciamos com umas belas “xuletas de cerdero”. E quem bem que souberam!! Aproveitámos ainda o belo relvado à volta do restaurante para uma pausa a repor algumas energias.
A partir daqui o caminho volta a ser espectacular. Voltámos a passar perto de um rio e uma barragem (mesmo que sempre com as eólicas por perto) e alguns kilometros mais à frente chegámos à separação onde o caminho segue para Finisterra ou para Muxia. Entretanto o Álvaro rebentou um pneu e o Nuno aproveitou para aplicar as suas técnicas de atirador furtivo, ao ludibriar completamente o João e a sua máquina fotográfica. O Álvaro que também possui um enorme treino militar aproveitou a manobra de diversão criada pelo Nuno para também atacar sem ser visto. com o João algo frustrado com o esquema montado por esta dupla seguimos viagem, e com o mar à vista começámos finalmente a descer. E que descida espectacular até CEE, por um estradão incrivelmente rápido que parecia mergulhar directamente no mar!
Já estávamos perto, pensámos.. Puro engano! Ainda faltava uma parede e mais uns km a subir. Apesar da adversidade, a etapa estáva proxima do fim e as forças lá apareceram. A paisagem é fantástica e isso motivou-nos ainda mais. A chegar a Finisterra o caminho segue mesmo junto à praia pelo que aproveitámos para ir calmamente a disfrutar do passeio. O último desafio é a longa subida de alcatrão até ao farol. Movidos por uma enorme força de vontade subimos como de uma final de etapa do tour se tratasse e só parámos junto ao ansiado km 0 assinalado num marco junto ao farol. Faltava muito pouco tempo para o pôr-do-sol e era notavel a quantidade de pessoas que ali estavam espalhadas pelo rochado para o ver. A nossa boleia ainda estava a caminho e por ali ficámos também à espera do último raio de luz do dia.
E valeu bem a pena, pois ao fim de 330 km não podiamos ter tido um final melhor para esta jornada. O caminho de santiago é uma aventura que envolve um enorme esforço fisico e também mental. Foi para mim um enorme prazer e uma honra ter partilhado esta viagem com um grupo fantástico que esteve sempre unido não só nos bons momentos mas também nos momentos mais críticos. Um enorme obrigado da minha parte ao João, ao Nuno, ao Álvaro e ao Bastos. Para este último uma palavra especial por não ter podido completar a aventura, mas para o ano irá completar com toda a certeza. Um muito obrigado também ao Romeu e ao Zé Carlos que foram levar-nos a Vila do Conde e buscar a Santiago e também ao Hernani que nos cedeu o track de ligação. Para ele também os nossos votos de um rápido regressos aos trilhos.
Todas as fotos estão na galeria do picasa separadas por dia. Não estão totalmente por ordem cronológica dado terem sido tiradas por várias máquinas.
Um grande abraço a todos e venha o caminho primitivo para o ano!



gostava de saber, se voçes vão fazer o caminho pritivo a santiago
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